Segunda-feira, Setembro 11, 2006

dor de barriga e cansaço.

Quando era pequena passava tardes na casa da avó grande. Elas sentavam-se, ao sol, com qualquer coisa estúpida – como um jornal ou um bocado de cartão – na cabeça e cochichavam sobre a vida das outras pessoas. Como eu era menina e pequena, não podia estar ao pé delas e tinha que me entreter à sombra. Para que eu não as desafiavasse contavam-me histórias como as do João Pestana, mas desta vez com aspecto mais medonho.
Era um homem, que por sinal apareceu nesse mesmo dia, com cara feia. Defina-se cara feia: rugas acentuadas (a idade não perdoa a ninguém, muito menos a homens maus), olhos fundos e olheiras grandes, tinha um aspecto gasto, cansado, de quem não gostava de meninos pequenos como eu, porque eles eram patetas e parvinhos (não lhe tiro a razão, mas os meninos pequenos costumam fazer rir toda a gente por serem tão desengonçados). Então, para que eu ficasse à sombra entretida nas minhas histórias, a avó dizia que ele levava com ele os meninos que não o faziam. Como qualquer criança pequena, eu era parvinha, e fiquei no meu canto, temendo que ele aparecesse e que a sua concepção de sombra não fosse parecida à minha.
Lembro-me que a tarde já devia ir mais ou menos a meio, quando ele apareceu. Trazia um saco cor de salmão, nunca me esqueci (porque pormenores de pessoas assustadoras nunca se esquecem). Eu mantive-me calada, esperando não despertar muito as atenções para que ele não fosse achar que me deveria levar porque eu era demasiado irrequieta. Surpresa: ele passou, disse «boa-tarde». A avó disse baixinho: «Este é homem que eu te disse.» (Coitadinho, a minha avó tinha acabado de o acusar de ser uma coisa feia e de o tornar o meu monstro, só por ele ser demasiado escanzelado.)
Ele passou e eu continuei a ler livros, a brincar com bonecas. Quando chegava a hora do lanche eu sentia-me feliz. Um dia tirei um iogurte que tinha uma coisa preta e mostrei à avó com cara de nojo: «Acho que está estragado. Se calhar já passou da validade.» A resposta da avó foi simples: «Deita fora e come outra coisa, menina.» Foi o que eu fiz.
Num outro dia, enquanto eu lanchava, ouvia uns gritos. Achei tudo muito estranho, mas como a avó não e ela era o meu exemplo feminino daquelas tardes, eu permaneci calada e não me manifestei, nem com um olhar estranho. Apercebi-me que os gritos vinham da casa do lado e eram de mulher. Às tantas reconheço a voz: «É a Ti Roxa.», penso. Ouço, então, uma voz masculina, num tom assustador e mandão. Devia ser qualquer coisa como: «Cala-te.» Tudo isto num tom mais agressivo, claro. Fez sentido, ele estava a bater-lhe, com força. Ela é gorda, feia e velha, por isso devia bater-lhe ou porque ela não fez o que ele queria, porque disse algo de errado aos filhos ou, cúmulo, a ele. As cenas de pancadaria nunca foram muito típicas do meu quotidiano, daí não estar acostumada àquelas coisas e achar tudo muito estranho.
Os pais iam tomar café, ver outras pessoas e como achavam tudo demasiado maçador para mim, deixavam-me com a avó. Era sempre divertido. Víamos os filmes parvinhos que ninguém gostava na televisão e podia sempre comer muitos rebuçados. «Anda, menina, podes tirar mais um, mas não podes contar à mãe.» Eu ria-me e tirava mais um, ou dois, ou três. A parte do contar à mãe é que era diferente, porque era sempre divertido naquela idade, e ainda hoje, confessar que fizemos qualquer coisa de errado.
Guardo poucas mais memórias daquelas tardes. Um dia as minhas amigas de lá, perderam um vestido de uma boneca. Ou noutro, que me fez chorar, o meu balão voou. E ainda hoje juro por deus que o vi lá ao longe, a dançar com as árvores. (Provavelmente aborreceu-se comigo e foi arranjar companhia melhor). De qualquer maneira, essas tardes acabaram. Uma imagem muito nítida fica e guardo-a com carinho: as videiras perto do palheiro, o cão que ladrava sempre que via alguém, as meninas sentadas nas escadas, à sombrinha, lendo histórias ou a fazer outra coisa qualquer que as meninas fazem nos domingos à tarde.
Hoje volto à casa da avó e ela guarda-me o mesmo cheiro, que é uma delícia. A avó quase nunca cozinha peixe, a casa fica sempre com um cheiro muito agradável. O chão é gorduroso, pega um bocadinho, porque a avó não se preocupa muito com isso. Eu também não me importo. Guardo um carinho especial por aquele sítio, que me guarda memórias doces e trágicas, de tardes que eu não quero mais esquecer.





Quinta-feira, Julho 27, 2006

morrer a cores.

Queria morrer com oitenta e seis anos.

Se fosse suicídio seria interessante, mas isso pouco importa. O importante é que quero ter tempo para pensar, o que pode ser um pensamento perverso. E perder as minhas vinte e uma gramas lentamente, o que seria um caso raro.



Se a minha morte ficar gravada num filme a cores vai ser ainda melhor. No fim sorrio com ar: “Oh! Vou morrer.” Um sorriso que ainda hei-de aprender a fazer, está claro.

Quinta-feira, Julho 20, 2006

O Senhor do Jornal.

"Como tardes quentes que as pessoas não sabem sentir, as coisas são demasiado efémeras, mas cansam porque tudo cansa. Fugir é apenas a vontade e nós não sabemos fazer nada disso."
O senhor do jornal.
No fim da rua há um homem que vendia jornais e uma vez desapareceu e apareceu quarenta e um dias depois. Ninguém o questionou por causa do seu desaparecimento porque ninguém tinha intimidade suficiente para isso. Era casmurro e não devia ter muita família. Apresentou uma vez um primo a uma senhora velha que morava num prédio em que as escadas tinham falhas grandes e que toda a gente se assustava sempre que uma porta se fechava com medo que tudo se desfizesse, mas essa senhora já morreu por isso é como se não contasse para estatísticas.
O Senhor do jornal.
Como quando acontece qualquer coisa diferente com as pessoas do meu bairro, toda a gente falava do que é que ele teria feito naqueles quarenta e um dias em que se tinha de ir comprar o jornal bem mais longe do que o habitual. (Quebras na rotina é sempre um fenómeno aqui, onde todos fazem o mesmo todos os dias do ano.) Claro que uns diziam que tinha ido ter com alguma mulher, porque os homens, nalgum momento da sua vida, precisam de uma mulher. Outros diziam que tinha ido visitar família que ninguém conhecia na terra de onde tinha vindo, porque há vinte e sete anos também tinhamos que ir comprar o jornal bem mais longe do que agora. Ainda havia as más línguas que espalhavam boatos de que ele andava metido em negócios estranhos e que tinha ido ajustar contas com algum traficante. Isto, obviamente, eram apenas especulações. As pessoas falavam e diziam qual das teorias lhes pareciam mais coerentes, mas nenhuma acreditava realmente naquilo que dizia.
O Senhor do jornal.
Quando ele voltou depois de quarenta e um dias sem vender jornais, continuou a vender jornais da mesma maneira que vendia antes. «Bom dia, senhor. Está bom? Então, são tantos cêntimos. Passe bem, volte sempre.». Quando conhecia melhor o cliente trocava o senhor ou senhora, conforme, pelo respectivo nome. Nome, pois bem, era aquilo que nós não lhe conheciamos. Era sempre "o senhor do jornal" e pronto. Mas os nomes também só atrapalham e nós nunca sentimos muita necessidade de alterar nada. Não sentimos vontade de alterar nada porque as coisas, no meu bairro e talvez em todos os bairros do mundo que eu não conheço, não devem ser alteradas. Foram feitas de determinada maneira e assim devem permanecer. Toda a gente deve andar mais ocupada com coisas importantes como saber o que os vizinhos fazem do que com as rotinhas que fazem bem a todo o ser que alguma vez tenha pisado o mesmo chão que nós. Por isso, ninguém deve fugir ou algo que se pareça e foi isso que o senhor do jornal fez, daí merecer tal importância.
O Senhor do jornal.
"Ai! As moscas são tão chatas. Já lhes conto histórias, ai já já!"
O senhor do jornal.
O senhor do jornal.
O senhor do jornal.
O senhor do jornal.

Terça-feira, Julho 18, 2006

Segredos.

Conheceram-se num encontro secreto comunista.
co.
mu.
nis.
ta.
se.
cre.
to.

Depois foi a revolução e já não precisavam de esconder nada.

Sábado, Junho 17, 2006

sem dores de dentes.

tive cá um rato em casa.
morreu esmagado numa parede porque mordeu um dedo ao meu pai.
diana. prazer.
responda: igualmente.