dor de barriga e cansaço.
Era um homem, que por sinal apareceu nesse mesmo dia, com cara feia. Defina-se cara feia: rugas acentuadas (a idade não perdoa a ninguém, muito menos a homens maus), olhos fundos e olheiras grandes, tinha um aspecto gasto, cansado, de quem não gostava de meninos pequenos como eu, porque eles eram patetas e parvinhos (não lhe tiro a razão, mas os meninos pequenos costumam fazer rir toda a gente por serem tão desengonçados). Então, para que eu ficasse à sombra entretida nas minhas histórias, a avó dizia que ele levava com ele os meninos que não o faziam. Como qualquer criança pequena, eu era parvinha, e fiquei no meu canto, temendo que ele aparecesse e que a sua concepção de sombra não fosse parecida à minha.
Lembro-me que a tarde já devia ir mais ou menos a meio, quando ele apareceu. Trazia um saco cor de salmão, nunca me esqueci (porque pormenores de pessoas assustadoras nunca se esquecem). Eu mantive-me calada, esperando não despertar muito as atenções para que ele não fosse achar que me deveria levar porque eu era demasiado irrequieta. Surpresa: ele passou, disse «boa-tarde». A avó disse baixinho: «Este é homem que eu te disse.» (Coitadinho, a minha avó tinha acabado de o acusar de ser uma coisa feia e de o tornar o meu monstro, só por ele ser demasiado escanzelado.)
Ele passou e eu continuei a ler livros, a brincar com bonecas. Quando chegava a hora do lanche eu sentia-me feliz. Um dia tirei um iogurte que tinha uma coisa preta e mostrei à avó com cara de nojo: «Acho que está estragado. Se calhar já passou da validade.» A resposta da avó foi simples: «Deita fora e come outra coisa, menina.» Foi o que eu fiz.
Num outro dia, enquanto eu lanchava, ouvia uns gritos. Achei tudo muito estranho, mas como a avó não e ela era o meu exemplo feminino daquelas tardes, eu permaneci calada e não me manifestei, nem com um olhar estranho. Apercebi-me que os gritos vinham da casa do lado e eram de mulher. Às tantas reconheço a voz: «É a Ti Roxa.», penso. Ouço, então, uma voz masculina, num tom assustador e mandão. Devia ser qualquer coisa como: «Cala-te.» Tudo isto num tom mais agressivo, claro. Fez sentido, ele estava a bater-lhe, com força. Ela é gorda, feia e velha, por isso devia bater-lhe ou porque ela não fez o que ele queria, porque disse algo de errado aos filhos ou, cúmulo, a ele. As cenas de pancadaria nunca foram muito típicas do meu quotidiano, daí não estar acostumada àquelas coisas e achar tudo muito estranho.
Os pais iam tomar café, ver outras pessoas e como achavam tudo demasiado maçador para mim, deixavam-me com a avó. Era sempre divertido. Víamos os filmes parvinhos que ninguém gostava na televisão e podia sempre comer muitos rebuçados. «Anda, menina, podes tirar mais um, mas não podes contar à mãe.» Eu ria-me e tirava mais um, ou dois, ou três. A parte do contar à mãe é que era diferente, porque era sempre divertido naquela idade, e ainda hoje, confessar que fizemos qualquer coisa de errado.
Guardo poucas mais memórias daquelas tardes. Um dia as minhas amigas de lá, perderam um vestido de uma boneca. Ou noutro, que me fez chorar, o meu balão voou. E ainda hoje juro por deus que o vi lá ao longe, a dançar com as árvores. (Provavelmente aborreceu-se comigo e foi arranjar companhia melhor). De qualquer maneira, essas tardes acabaram. Uma imagem muito nítida fica e guardo-a com carinho: as videiras perto do palheiro, o cão que ladrava sempre que via alguém, as meninas sentadas nas escadas, à sombrinha, lendo histórias ou a fazer outra coisa qualquer que as meninas fazem nos domingos à tarde.
Hoje volto à casa da avó e ela guarda-me o mesmo cheiro, que é uma delícia. A avó quase nunca cozinha peixe, a casa fica sempre com um cheiro muito agradável. O chão é gorduroso, pega um bocadinho, porque a avó não se preocupa muito com isso. Eu também não me importo. Guardo um carinho especial por aquele sítio, que me guarda memórias doces e trágicas, de tardes que eu não quero mais esquecer.

